A fala no lugar do silêncio: Clínicas do Testemunho

Por: Fundación Salto | 24 de enero de 2017

poesiacpadinBárbara de Souza Conte. Psicanalista.(Porto alegre, Brasil)

O momento é de esperança e de retomada da confiança no Brasil. A incerteza chegou ao fim dizia o discurso de posse de Michel Temer em 31 de agosto de 2016, ao assumir o lugar da presidenta destituída, Dilma Rousseff. Muito ao contrário do que o dito por um dos líderes do único partido que sobreviveu incólume a 21 anos de ditadura civil-militar brasileira (na época, MDB, hoje PMDB), vivemos um momento de incerteza frente à arbitrariedade das decisões jurídicas, sua instrumentalização política, o encorajamento da violência das polícias militares nas ruas. Enfim, a ameaça aos direitos humanos e as conquistas sociais de nossa recente e incipiente democracia.

A Anistia de 1979 no Brasil foi sinônimo de silenciamento, página virada. Há o legado ingrato da política do desmentido frente às torturas que os agentes do Estado cometeram e que continuam sem punição, bem como a prática do desaparecimento forçado, que tem como efeito a impossibilidade dos familiares enterrarem seus mortos e não realizarem seus lutos.

Quase 50 anos foram necessários para que se instalasse as Comissões Nacional e Regionais da Verdade (2012) em cumprimento ao direito por Verdade, Memória e Justiça. No entanto, mantém na esfera penal a não responsabilização individual e coletiva uma vez que não há punição aos perpetradores das violências. Nesse movimento por ressignificação da Anistia, foi instaurado em 2013 o projeto Clínicas do Testemunho, da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, que oferece escuta aos afetados e seus familiares. Reconhecimento do Estado dos efeitos traumáticos engendrados pelos atos de exceção da ditadura civil-militar brasileira e que visa abertura para um trabalho simbólico, através do valor do testemunho. Testemunho que rompe o silêncio do vivido, que faz aparecer o sofrimento frente ao excesso do real, e busca possibilidades de reparação psíquica através de aberturas simbólicas, como a fala, a criação na escrita, a produção de filmes e os testemunhos coletivizados. Projeto desenvolvido por psicólogos e psicanalistas que, além do atendimento individual e coletivo, capacitam profissionais, agentes de saúde e da assistência que trabalham em serviços que atendem sujeitos afetados pela violência de Estado atual.

As Clínicas do Testemunho escancaram a contradição vivida entre o que é repetido na vida dos sujeitos sob a forma do não dito e do irrepresentável e as brechas produzidas na escuta e na fala que proporciona novos caminos psíquicos – as vias substitutivas, como ensinou Freud. São projetos como o Clínicas do Testemunho, que visam a reparação psíquica, que marcam a potencia do trabalho psicanalítico no âmbito do social e a possibilidade de romper o silêncio que o medo impõe. Sujeitos que recuperam a condição de fala e de criação.

Na corrente das possibilidades criativas temos a arte e que utilizamos aqui como exemplos do tema que inspirou esta reflexão: as (in)certezas. Tema da 32 a Bienal de São Paulo, Incerteza Viva apresenta obras, filmes, instalações que visam expor que “ frente as grandes questões de nosso tempo é necessário desvincular a incerteza do medo”. A proposta é clara – a ruptura do silêncio dá lugar aos processos criativos como forma de resistência.

Temos outro exemplo, a utilização do Memorial do Rio Grande do Sul/ Museu dos Direitos Humanos para desenvolver as atividades públicas do Clínicas do Testemunho, também como forma de resistência à política de desmonte da cultura e dos direitos humanos, no estado do Rio Grande do Sul.

Tempos de romper o silêncio e o desmentido. Aposta na potência da palavra e da organização coletiva para enfrentar o medo e a repetição mortífera da violência.

Tempo que transformar certezas em incerteza, conforme consta na apresentação da Bienal “condição psicológica e afetiva ligada a processos de tomada de decisão individuais e coletivas, descrevendo os níveis variáveis de compreensão e dúvida em uma dada situação”. Benvinda a dúvida e a resistência como forma de dizer não a isso, sim àquilo.

Bárbara de Souza Conte
Psicanalista. Membro pleno da Sigmund Freud Associação Psicanalítica.
Integrante do projeto Clínicas do Testemunho / Instituto APPOA.
Membro da Comissão de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia.
Porto Alegre, Rio Grande do Sul